• A fábrica de fantasmas

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  • 04/09/2022 11:34
    Por Ataualpa A. P. Filho

    Hoje peço encarecidamente que ouça, com um pouco mais de paciência, o que tenho a dizer. Aqui já exponho as minhas desculpas, caso a prosa fique esticada em detalhes.

    Há fatos que não juntam poeira na memória, porque a saudade sempre lustra as lembranças nas revivências do re(a)cordar. As re(a)cordações, às vezes, também nos fazem re-pensar, além de aproximar o ontem do agora.

    Não tenho medo de navegar pelo passado, porque as velas da aprendizagem é que me conduzem. Sei que os ventos do tempo apontam para o futuro. As brisas das manhãs são mais leves para que se possa admirar a beleza das gotas de orvalho nas pétalas das flores. Até os raios solares vêm de mansinho.

    Venho assim lentamente por esta beirada, porque o assunto a ser abordado é delicado: tentam ressuscitar fantasmas que a história já comprovou que, dentro do formato idealizado há séculos, não tem mais espaço no presente.

    O tribalismo moderno tende a dar fim às hierarquias impostas pelo medo. A mobilização em função dos Direitos Humanos reúne forças para que o respeito mútuo seja consolidado. E, com isso, a paz reine entre os homens.

    Todos sabem que a sociedade está estruturada em classes. Mas nenhuma delas, nem mesmo as que se consideram donas do poder político, tem o direito de subjugar, humilhar, explorar pessoas menos favorecidas economicamente.

    Hoje até a Alegoria da Caverna de Platão tem outro contexto. Muitos carregam a própria cela nas mãos. Estão atados a um celular, acorrentados por aplicativos e por redes sociais. Só enxergam a sombra da realidade. Evitam a luz da Verdade.

    Na minha modesta opinião, o pior fantasma é o que surge em período eleitoral. Algumas ideologias são demonizadas, descritas como lobo mau que aterroriza criancinha.

    Há também projeções de imagens surrealistas. Candidatos se pintam como salvadores da pátria, enaltecem as próprias virtudes. Transfiguram-se em heróis virtuosos, capazes de operar milagres. A inverossimilhança é tão grande que alguns se apresentam como honestos, mas ninguém mais acredita.

    Por atos escusos, nascem os ditos “funcionários fantasmas”. É bem verdade que o povo está calejado. Identifica facilmente as dissimulações. A sorte é que a hombridade não está à venda. Não se trata de fantasia de carnaval.

    Cá entre nós, digo que um dia também me senti fantasma. Mas essa é uma história longa. Vou pular os entretantos e chegar aos finalmentes para não cansar:

    Em Teresina, em tempos idos, em casa, éramos oito crianças; eu, o mais velho. Quando beirava o início da adolescência, já ajudava a minha mãe em algumas tarefas domésticas: acender um fogareiro, um ferro de passar a carvão, mexer um papeiro para não deixar embolar o gomoso. Também era da minha incumbência pegar número na fila do antigo INPS para atendimento médico.

    O meu quinto irmão foi afetado pelo que chamavam de “febre reumática”, embora ainda criança. Ele sentia muitas dores. Nas crises, minha mãe o leva ao posto médico, que, na época, tinha o nome de SAMDU (Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência). Os médicos sempre receitavam a tal Benzetacil.

    Em uma dessas crises, já no fim da tarde, a minha mãe não pôde levá-lo. Coube a mim essa incumbência. O SAMDU ficava distante de casa. Não havia ônibus. Fomos a pé. Chegamos ao posto no início da noite. Só que, no “senta e espera”, as horas passaram.

    Depois de atendido e medicado, voltamos. Como ele estava sonolento, coloquei-o sentado no meu ombro. Mantinha-o seguro pelas mãos. Quando cochilava, apoiava o queixo na minha cabeça.

    Em uma rua com iluminação precária. Não havia ninguém sentado na porta de casa. A cidade não tinha tantos automóveis como agora. O silêncio da noite era maior. Caminhando por uma calçada, já próximos de uma esquina, uma garota veio em nossa direção. Quando nos avistou, deu um enorme grito:

    – Um homem com duas cabeças!…

    Não tivemos tempo para desfazer o equívoco. Ela, com uma velocidade incrível, tirou as sandálias e meteu o pé na carreira. Chegamos até a esquina, olhamos para o lado e não a vimos.

    Se ainda for viva, encontra-se na terceira idade. E, com certeza, deve ter em mente o susto que levou no meio da noite em uma rua escura.

    As imagens desse episódio continuam na minha memória, pois sempre foram lembradas nos encontros que tive com esse saudoso irmão, que tão cedo partiu. Não esquecemos o dia em que fomos vistos como uma assombração.

    Entre fantasmas e fantasias, surgem rotas de fuga da realidade, pois muitos evitam deparar-se com a verdade despida: nua e crua.

    Quem melhor definiu os verdadeiros fantasmas foi Mario Quintana: “é um exibicionista póstumo”.

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