A Desmemoria nacional no debate do Bicentenário

  • 14/maio 08:00
    Por Gastão Reis

    Confesso meu receio de que o debate sobre o bicentenário da independência desemboque na unanimidade burra de que nos falava Nelson Rodrigues. Num sentido essencial, ele nos relembrava da peça fundamental da democracia – o contraditório, a despeito de, na época, ser rotulado de reaça por uma esquerda que seguia à risca o lema de Lênin: acuse seus inimigos daquilo que você é. Ou seja, uma esquerda que, nas palavras de Fernando Gabeira, combatia a ditadura militar para implantar a do proletariado. Pode?

    É bem vinda a inciativa de O Globo, na edição de 07/05/2022, de publicar, a quatro mãos, com jornalistas do prestigioso jornal Público, de Portugal, uma série de entrevistas sobre o Bicentenário do 7 de Setembro de 1822. Oxalá essa iniciativa abra espaço para a visão d’Além Mar, como se dizia em tempos idos. Que os jornalistas portugueses nos tragam visões alternativas ao invés de se irmanarem na unilateralidade tão danosa à investigação e verdade históricas.

    A primeira reportagem tem como título “Além do Ipiranga – Os 200 Anos do Brasil Independente, Série Mira no Futuro”. A primeira entrevistada foi a historiadora Lilia Schwarcz, que nos diz que a efeméride não cabe na visão autoritária de Bolsonaro e que precisamos pensar num Brasil mais inclusivo. Certamente que sim. Passemos aos contrapontos.

    À primeira pergunta feita: “Qual independência iremos celebrar neste 7 de setembro?”, Lilia responde criticando o 7 de setembro militar de Bolsonaro, de 2021, em que houve um clima de golpe, que acabou não progredindo em boa medida por não ter tido apoio da sociedade e do exército. Na mesma resposta, ela emenda: “A independência de Bolsonaro é masculina, europeia, conservadora, retrógrada e autoritária.” Pondo Bolsonaro à parte, cada um dos adjetivos usados por ela merece ser qualificado no seu tempo histórico.

    Foi masculina? Sim e não. Proclamada por D. Pedro I, um príncipe português com coração bem brasileiro naquele momento. E apoiado por sua mulher, a Imperatriz Leopoldina, austríaca, mas nem por isso menos brasileira na defesa de nossos interesses nacionais. E ainda a postura e visão estratégica de José Bonifácio, justamente cognominado o Patriarca da Independência.

    Em seguida vem o qualificativo de europeia, que é bastante simplista. Se entendermos por europeia o fato de falarmos português, foi mesmo. Mas é preciso boa dose de amnésia histórica quando nos reportamos à firme reação popular, de armas na mão, na Bahia de apoio à D. Pedro I. Mais ainda: não se pode ignorar a pesquisa “Guerra Literária – Panfletos da Independência -1820-1823, em 4 volumes, coordenado pelo historiador José Murilo de Carvalho, que confirma ter havido participação popular ativa no processo que levou à independência. Nas praças e bares, letrados liam para populares analfabetos as notícias do que estava ocorrendo A própria Lilia, em entrevista anterior, nos dizia que até os escravos estavam a par dos acontecimentos.

    Quanto ao caráter conservador, teve mesmo. Nada diferente do ocorrido nos Estados Unidos, em 1776. Pena que, com frequência, usamos o termo como se fosse sinônimo de atraso. Elio Gaspari, em sua coluna no Globo, afirmou, recentemente, sem pejo, que José Bonifácio e D. Pedro I tinham um projeto de futuro para país, que não era sinônimo de atraso. Bom lembrar o lado conservador da experiência americana, que nem por isso redundou em um país atrasado ou pouco criativo. Muito ao contrário.

    Quanto aos adjetivos retrógrada e autoritária, e voltando com Bolsonaro à cena, eles podem se aplicar à sua visão golpista e intervencionista, mas não ao processo ocorrido nos anos anteriores e posteriores a 1822. José Bonifácio foi uma figura à frente do seu tempo. Defendia o respeito à natureza e aos índios, e questionava a estrutura fundiária do país. Pedro I e ele eram ambos contra a escravidão. Pedro I, sob pseudônimo, escreveu um artigo onde dizia que a escravidão corrompia não só o escravo, mas também o senhor.

    Talvez em função de sua visão desfocada sobre D. Pedro II, Lilia, em momento algum, separa o período monárquico do republicano, indo na direção de que o povo sempre foi esquecido. Separar as duas épocas históricas, é fundamental para entendermos o que houve.

    Ela nos diz, por exemplo, que “Nós, brasileiros continuamos com essa mania de dar as costas para o meio ambiente”. Como assim? E a floresta da Tijuca replantada no período do Império? Ou mesmo o fato de ainda termos, a despeito dos problemas atuais, a maior área florestal do mundo?

    Lilia foca na necessidade de enfrentarmos a questão racial, como se fosse um problema sempre esquecido. Ela omite o fato das numerosas alforrias, concedidas ou adquiridas, na colônia e no Império. O Brasil foi praticamente o único país no mundo onde elas foram tão expressivas. No 13 de maio de 1888, quando foi assinada a Lei Áurea, 80% dos descendentes de africanos já eram livres. A própria Princesa Isabel deu guarida a escravos fugidos.

    Ela acusa o Brasil de cultivar uma memória europeia esquecendo o legado da cultura africana. Será? Aqui o legado das raízes religiosas africanas, da culinária e da música estão vivas ao passo que nos EUA houve uma espécie de aniquilamento da alma africana. Lá, os negros são praticamente todos evangélicos, a comida de origem africana inexiste e a batucada, tão viva no Brasil, desapareceu dos EUA. No jazz, é fato, a criatividade negra explodiu. A nossa miscigenação não é apenas racial, mas também cultural, e em alto grau.

    Pior: ela passa por cima do período inicial da República em que a eugenia serviu de disfarce para a tese do branqueamento da população, com apoio de intelectuais bem conhecidos. Regime que nasceu com vergonha de seu próprio povo ao invés de cuidar da educação pública de qualidade para todos, capenga até hoje, só podia mesmo ser desigual, corrupto e sem representatividade.

    Não se trata apenas, como insiste Lilia, do resgate do legado africano, mas da maior parte de nossa população, composta por negros, mulatos, pardos e brancos pobres, que foi esquecida pelos poderes republicanos. É esta a ferida aberta em termos de inclusão.

    (*) NOTA: No dia 26/05/2022, quinta-feira, às 19 horas, no Salão Nobre da UCP, tomo posse na Academia Petropolitana de Letras e, após, lanço meu terceiro livro “História da Autoestima Nacional”. Bem vindo(a).

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