• ‘A Colômbia precisa escapar da polarização’

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  • 24/04/2022 08:11
    Por Fernanda Simas / Estadão

    Em fevereiro de 2002, Ingrid Betancourt tinha pouco apoio nas pesquisas para a presidência da Colômbia. Crítica das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a então candidata independente foi sequestrada durante ato de campanha na região de Caguán. Vinte anos depois, ela retorna à disputa presidencial, mais uma vez como candidata independente, após deixar a coalizão de centro, e aposta em ser a terceira via em uma eleição polarizada, marcada para 29 de maio.

    Qual é a importância das eleições deste ano?

    A Colômbia precisa escapar da polarização. Temos dois candidatos na liderança que são de extrema esquerda, (Gustavo) Petro, e de extrema direita, Fico (Federico Gutiérrez). E o que vemos é que a Colômbia está tentada a voltar a uma situação anterior ao acordo de paz, o que poderia levar novamente a situações de violência. Por outro lado, temos a crise na Ucrânia e a Colômbia se ltorna um espaço geopolítico de interesse para forças que estão gravitando na região por meio da Venezuela, os russos, que têm interesse em quebrar as alianças tradicionais da Colômbia com o hemisfério norte. Isso leva à tentação de cair em esquemas que colocam em risco a democracia e a liberdade de expressão na região.

    O acordo de paz pouco avançou em cinco anos. O que precisa mudar?

    Temos de acelerar a implementação do acordo. Por exemplo, não se acelerou a restituição de terras às vítimas deslocadas e não se está dando os títulos de posse das propriedades com celeridade suficiente. Se isso não for feito, as pessoas que voltam às suas terras não têm acesso ao crédito e não podem viver da terra. Outro gargalo é com as instituições de transição. A Justiça Transicional tem um número de processos enorme e pouco tempo, até 2028, para sentenciar e condenar os atores criminosos. Depois de cinco anos, ainda não temos nem a primeira sentença, mesmo em crimes tão óbvios, como os de sequestros das Farc. Por último, é muito importante que os colombianos que apostaram na paz tenham sua vida protegida. Tivemos mais de 600 assassinatos de pessoas vinculadas à desmobilização.

    A senhora foi criticada quando pediu indenização pelo sequestro e por deixar o país. Como responde?

    Essas críticas fazem parte da narrativa vendida por um Estado corrupto. A lei estabelece o direito às vítimas do terrorismo de recorrer a reparações. O Estado utilizou uma narrativa muito perversa, que foi dizer aos colombianos que querer a reparação era abusar do Estado. Há interesses políticos nessas críticas, mas elas também mexem com a realidade de milhões de colombianos que saíram da Colômbia por causa da violência.

    Como é a relação com os ex-integrantes das Farc no contexto político?

    Ela já existe porque eles já são um partido político. O que a Colômbia precisa é mais do que uma voz política por parte do (partido) Comunes, é uma reconciliação com o país. Essa reconciliação tardou porque havia uma dificuldade em criar cenários de reconciliação, na qual membros do secretariado das Farc pudessem entender a dor das vítimas e saíssem da narrativa de justificativa do que fizeram para uma narrativa de reparação.

    Como enfrentar o narcotráfico e responder aos jovens que saíram às ruas do país nos últimos anos?

    O tema da droga é crítico, já não somos apenas um país produtor, mas um país consumidor. Os consumidores colombianos também estão contribuindo para as rendas dos grupos narcotraficantes, todos os países consumidores estão. É preciso passar de uma política de criminalização do consumo para uma política de saúde pública do consumo. Todo o músculo financeiro dos EUA e o esforço militar da Colômbia não conseguiram acabar com essa situação, assim como no México e no resto da nossa região. Se conseguirmos um acordo desse tipo, teremos que ter a capacidade de enfrentar os danos locais. Na Colômbia, o desflorestamento em razão do tráfico de drogas é enorme e leva à perda da Amazônia.

    Como foi a decisão de voltar ao país agora e se candidatar?

    Levei tempo para tomar a decisão e foi pelo amor à Colômbia. Tenho aqui meus filhos e minha família. Ao sentir que a família voltou a ser família, se abriu a possibilidade de trabalhar com a família Colômbia.

    Qual é a importância de uma mulher estar envolvida no processo político?

    Falar como mulher é uma revolução na Colômbia, um país muito patriarcal, com esquemas machistas muito fortes, mas também com uma presença feminina muito importante, no sentido de que as mulheres fizeram a Colômbia. Esse é um país onde 40% dos lares têm uma mulher como chefe de família. As mulheres aqui aceitam ser mães, apesar de o homem não estar presente. Essa realidade traz uma responsabilidade e um compromisso muito forte. Durante 200 anos de nossa independência, fomos marcados por uma visão masculina de gerenciamento do tema público, ou seja, de confrontação verbal, física, de muita violência.

    As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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