• Não desista, o amor vale a pena

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  • 01/10/2016 12:00

    Na adolescência, quando os hormônios afloram e a primavera bota paixões no ar e pétalas nos cílios das moças, algumas obras me deram bússola para a odisséia da busca do amor verdadeiro.

     No Cânticos dos Cânticos, descobri Salomão, sancionando na Bíblia as sacralidades do amor em poesia sensual e sublime, de corpos de alabrastro, trigo, hena, mirra, safira e lírios, tecendo em carne o enlace já feito nas almas tornadas gêmeas. 

     Depois constatei as altas profundidades cantadas em I Coríntios 13. O Apóstolo fala de ágape, sentimento maior que o eros do Cantares. Há traduções que preferem a palavra caridade, mas em minha pessoal hermenêutica, qualquer amor que se preze, precisa construir sentimento “não invejoso”, que “é paciente”, “nunca maltrata”, na integralidade que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Eros sem ágape é eros ressequido, sem alma.

    Nessa formação filosófica, duas músicas me deram lanterna de alumiar a marca d'água do amor. Em Valsinha, Vinícius e Chico cantaram relação esfriada pelo cotidiano de obrigações, mas que em milagre de amor, fez com que um dia “ele chegasse tão diferente do jeito de sempre chegar”, e beijasse a mulher “de jeito muito mais quente do que sempre costumava ousar”, para “não deixá-la só num canto, e pra seu grande espanto convidá-la pra rodar”. Este casal valsou lindamente, amando-se até o dia clarear. 

    E a canção preciosa de Mário Rossi e Roberto Martins, consagrada por Carlos Galhardo e Betânia: Bodas de Prata. O amante, já esposo, agora idoso, beija os lindos cabelos “que a neve do tempo marcou” e vê com olhos molhados de agora a amada no dia do casamento, linda, de branco, na “imagem que em nada mudou”. 

    Cristo deixa claro como se dão esses enlaces bem-sucedidos, de ternura longeva. “Serão ambos uma só carne”, receita de casal sólido, que nasce de indivíduos que de famílias vieram, para famílias tecer (“Deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher”). Por isso, têm norte na vida. Mais do que caminhar lado a lado, caminham num só corpo, uma só carne, mesma alma.

    A todos os casais que se pretendem eternos, não fugazmente “enquanto dure”, há que haver esses empenhos vários. O amor da carne feito em apaixonada delicadeza de lírios, o empenho da paciência que tudo sofre, o assoprar das brasas que refaz a chama, o enxergar da menina de ontem na mulher madura de hoje, e a busca da harmonia que faz a unidade.

    Hoje há relações que duram algumas “ficadas”. E relações que embrutecem porque o dia a dia é árido. Relações em que as desistências são fáceis. Aquelas em que filhos de um são problema para o outro e em que filhos de ambos são problema de ninguém. E relações em que o carinho, sem rega, fenece porque há contas a pagar e agendas a cumprir. 

    Sei de casais que andaram juntos tanto tempo, sacrificando tanto, e se doaram tanto, que até doeram, se feriram, magoaram-se. Pois lhes digo. Faz parte. A dor, a lágrima, a ferida. Casais vitoriosos precisam aprender a soprar as feridas um do outro. Como cisnes que olham para trás e percebem o quão longe nadaram. Falta pouco para a chegada aos jardins da harmonia. Não desistam. Cicatrizem juntos. Peçam a Deus amor de alabastro, amor paciente, amor de ressurreição, amor que se purifica com a neve do tempo, amor em que ambos se fazem uma só carne. Vale a pena. O amor vale a pena. Mais do que só um sentimento, ele é ato de vontade. Obra de fé e alegria.

    denilsoncdearaujo.blogspot.com

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