• “Seu Juquinha”, em brasileiro

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  • 27/04/2019 07:00

    Vou contar uma estória passada num país integra-do por pessoas decentes e, também, por indivíduos cujo egoismo é de matar de ódio até santo canonizado. E quando os dois se encontram, ai os conceitos do bem e do mal em-baralham as obtusas mentes, transformando-as em tropas de choque virulentas e insensatas.

    Seu Juquinha possuía um sítio bem aproveitado em cada metro quadrado. Vivia da lavoura, cuidada com carinho sob muita experiência que trouxera do pai, do avô e do bisavô, este o comprador das terras nos tempos do imperador. Muitas fruteiras, largos e compridos canteiros de hortaliças, chiqueiro, galinheiro, cocheira, itens habitados por seus animais, cuidados e com saúde, todos servindo ao sitiante conforme usos e costumes agropastoris. Cercando tudo, uma nesga de densa mata habitada por animais silvestres.

    Seu Juquinha tinha mulher e filhos todos alinhavados nos bordados do “Sitio Feliz”, como o batizara o bisavô, mas que todo mundo conhecia por “Sitio do Seu Juquinha”.

    Vivia para sua atividade, ajudava como podia a toda a vila, não se metia em confusões e dizia que “- Mulher de amigo, para mim, é homem”. E tinha uma outra afirmativa, que cumpria à risca: “- Quem tiver precisando de alguma coisa, me procura que eu ajudo!”

    Assim o Seu Juquinha, até no dia em que viu rondando a propriedade, um aglomerado de pessoas vestidas de vermelho, agitando bandeiras e gritando palavras de ordem, que nada tinham a ver com ele.

    Mas tinham a ver com ele, sim; e logo viu seu domínio invadido pela truculência em tropel, pisoteando canteiros, assumindo o comando de uma pequena colhedeira de grãos, a tudo esmagando, até uns pés de laranjas carrega-dos de nascentes frutos. Não tardou a malta penetrar casa a dentro, derrubando tudo e arrebanhando preparos nos nichos da cozinha, obrigando a debandada dos habitantes, em apavorante correria até a mata próxima. Seu Juquinha não se acovardou e buscando no celeiro uma velha espingarda, herança de família, pespegou tiros para todos os lados, visando espantar os invasores. Um dos projetis foi aninhar-se na perna de um magrelo de olhar zumbítico.

    A ação deflagrou uma debandada atropelada dos invasores, que atiraram também em Seu Juquinha, que ficou estirado e ferido no ombro. O grupo do movimento procurou a autoridade legal e o posto de saúde para tratar do seu baleado no lamentável faroeste.

    E tudo foi resolvido: Seu Juquinha foi preso, sua família perambula nas estradas, os invasores assumiram o sítio, comeram a vaca, as galinhas, os porcos, os legumes, as frutas, cortaram toda a mata e venderam a madeira, pisotearam tudo e acabaram botando fogo na casa.

    Partiram para outra propriedade e para outra e mais outra, enquanto Seu Juquinha foi condenado por tentativa dolosa de homicídio e mofa entre as quatro paredes da imunda delegacia do povoado. A família sumiu estradas acima e abaixo, o sítio desertificou e o movimento invasor entrou na justiça para exigir indenização pela precariedade da produção, logo esgotada e consumida, obrigando a malta a abandonar o local por improdutivo. A lei os protegeu de forma ampla, tão injustiçados, os coitadinhos…

    Seu Juquinha, em certa manhã de frio outono, foi encontrado pendurado na viga da cela, língua para fora e olhar perdido fixado nas cinzas do sítio.

    E afirmam uns místicos rurais que Seu Juquinha foi visto sendo levado pelos bisavô, avô e pai para um novo e luminoso sítio, a ele garantindo estar em completa segurança, embora afirme-se que estão montando por lá, vindo do lado fumegante e vermelho do Infinito o “Movimento dos Sem Céu”.

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