Catedral: uma história de perseverança

Por: Carolina Freitas

Domingo, 15 de Abril de 2018


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Foto: Renata Santos Ferreira Lima

Ela é daquelas que chamam atenção mesmo de longe. Alta e imponente, não enfrenta dificuldade quando o assunto é conquistar quem a visita. Muitos se encantam por sua magnitude, mas é inegável que seus detalhes minimamente pensados são essenciais na composição da obra. Hoje um dos principais cartões-postais de Petrópolis, a Catedral São Pedro de Alcântara atrai olhares de moradores da cidade e turistas, católicos ou não.

A trajetória do templo tem início em 16 de março de 1843 quando Dom Pedro II cria o povoado de Petrópolis e prevê no Decreto Imperial a edificação de uma igreja em louvor a São Pedro de Alcântara, posteriormente nomeado padroeiro da cidade e do Brasil. O terreno, reservado pelo Major Koeler como uma área triangular entre as atuais avenidas Tiradentes, Ipiranga e Raul de Leoni, foi popularmente chamado de ‘Morro de São Pedro’, ‘Belvedere São Pedro de Alcântara’ e ‘Morro da Igreja’.

Como aponta Jeronymo Ferreira Alves Netto, membro do Instituto Histórico de Petrópolis desde 1966, enquanto a Catedral não era finalizada, os atos religiosos católicos eram realizados em uma matriz provisória, construída no começo da Rua Oscar Weinschenck (que dá acesso à Rua Irmãos D’Ângelo), em frente ao Palácio Imperial. Ela funcionou até 1925 e foi demolida antes que a nova estivesse pronta.

De acordo com o professor, a Princesa Isabel pode ser considerada a alma e maior benfeitora da Nova Matriz. Ela promovia quermesses, batalhas de flores (brincadeira que consistia em um passeio de carruagens/automóveis em que os envolvidos lançavam pequenos buquês uns sobre os outros) e chegou a desenvolver um Livro de Ouro para angariar donativos para a construção. Além disso, mesmo em exílio, foi uma das principais responsáveis por garantir que o projeto fosse efetivamente executado.

Foram 93 anos até que a ideia finalmente saísse do papel. Ao longo desse período as obras chegaram a ser interrompidas, houve a troca dos engenheiros e mudanças no projeto. Prova disso é a posição da fachada da Matriz que, inicialmente, estaria voltada para a Rua da Imperatriz, mas que teve sua direção alterada e hoje converge para a Avenida Koeler, onde coincidentemente está localizada a residência de verão da Princesa Isabel.

‘Esta alteração encontra explicação no fato de que a orientação das Catedrais possuía um profundo significado. A fachada principal dirigia-se para o oeste, ou seja, para o pôr do Sol, a fim de absorver a última luz do dia. O sacerdote, defrontando o altar, dirigia-se para o leste, isto é, para o nascente. Os pórticos norte e sul, frio e quente, eram mais ou menos simbólicos do Velho Testamento e do Novo, sendo que ao sul cabia simbolizar a vinda de Cristo’, esclarece o professor Jeronymo.

Foi apenas em 1969, ano de inauguração da torre de 60 toneladas da igreja, que a obra foi declarada oficialmente concluída pelo bispo Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra. Seus sinos, por sua vez, tocaram pela primeira vez já em 1963.

Detalhes escondidos

Dom Gregório Paixão, autor do livro ‘A Catedral de Petrópolis’, conta que seu processo de pesquisa para o desenvolvimento da obra levou três anos e que sua fascinação pelo local foi imediata.

‘Meu interesse em reunir a história da Catedral em um livro surgiu no momento exato em que entrei na Catedral, no dia de minha posse como bispo de Petrópolis, em 16 de dezembro de 2012. Fiquei impressionado com a beleza da construção e pelo clima de oração que ela transmite. Com isso comecei a ler todo o material que havia sido escrito sobre ela, desde 1876 aos nossos dias’.

Segundo Dom Gregório, a Catedral recebe anualmente 300 mil visitantes, enquanto o Museu Imperial recebe 420 mil. A construção se tornou um marco para Petrópolis e, buscando resgatar sua trajetória, ele traz no livro curiosidades sobre elementos que a compõem como o órgão de 2.227 tubos e nove toneladas que lá repousa. Isso sem falar nos 38 vitrais, joias de cor e luz, que valorizam fatos históricos das principais personagens que viveram em Petrópolis.

À direita de quem entra na igreja está a Capela Imperial, onde se encontram os restos mortais de Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina, Princesa Isabel e Conde d’Eu. Em um dos vitrais que constituem o ambiente é possível ver a Matriz de Petrópolis inacabada e, entre flores de Maracujá, a Rosa de Ouro com que o papa Leão XIII presenteou a Princesa Isabel por ter libertado os escravos do Brasil em 1888. Também é retratado o brasão imperial.

A fotógrafa responsável pelos registros do livro, Renata Marcondes, é de Teresópolis e revela que até participar da iniciativa, não conhecia a história da construção. De acordo com ela, atuar no projeto mudou seu olhar.

‘Achei que seria um trabalho macro, comecei fotografando a Catedral em sua plenitude, mas o que Dom Gregório queria eram os detalhes como o telhado em forma de cruz, as gárgulas (figuras monstruosas) localizadas sob as portas para nos lembrar que o mal está sempre a espreita, assim como os anjos que sustentam o telhado’, diz Renata.

Quando questionada sobre os pontos da história pelos quais mais se interessou, ela cita o caso do Monsenhor Teodoro Rocha. Conhecido como ‘seu Vigarinho’, ele sofreu uma embolia cerebral e morreu no púlpito da Matriz Velha em 22 fevereiro de 1925 depois de implorar aos católicos petropolitanos que contribuíssem para que as obras da futura Matriz fossem finalizadas. O episódio acabou gerando mobilização e, em novembro do mesmo ano, a Catedral foi inaugurada.

Para Dom Gregório, a Catedral São Pedro de Alcântara nos ensina que os grandes feitos são conquistados não pela força, mas pela perseverança. ‘O que mais me encanta na construção é ver que ela é capaz de encantar todas as pessoas. Sejam católicas ou não, todos se sentem atraídos por sua beleza, história e mística. Ela nos faz respirar espiritualidade e transpirar mística. É um monumento não só para se ver, mas para se sentir’, conclui ele.

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